Filomena’s Voice

Na Mouraria, típico bairro lisboeta, a associação Renovar a Mouraria conduz um projeto, Migrantour, cujo objetivo é formar e contratar imigrantes para serem guias turísticos. Um destes guias é Filomena Farinha que conduz os visitantes pela “sua” Mouraria.

“Sou natural de Angola, mas a minha nacionalidade sempre foi portuguesa. Sempre senti Portugal como a minha terra natal. Mas como cresci e vivi longos anos no Brasil (de 1976 a 1999) tendo voltado a Portugal definitivamente em 1999, acabei por me sentir imigrante na minha própria terra.

Pelo facto de ter trabalhado como secretária numa universidade no Brasil, quando vim para Portugal procurei inicialmente trabalho na área administrativa, mas senti algum preconceito por causa do meu sotaque. Em fevereiro de 2014, acabei por constituir a minha própria empresa de animação turística e, em 2015, tive conhecimento do projeto Migrantour, sendo que em fevereiro iniciei a formação como Guia Intercultural na Mouraria.space

portugal testimony

spaceNa formação foi-nos ensinada a história da Mouraria, a sua multiculturalidade e a função de Guias. O objetivo é dar a conhecer aos visitantes a Mouraria sob o olhar de um migrante. Eu dou a conhecer a “minha” Mouraria e ao longo das visitas conto os factos históricos do bairro, falo sobre as comunidades que ali vivem e sobre a minha experiência como mulher migrante com sotaque brasileiro.

A Mouraria é o bairro mais multicultural de Lisboa. Ao mostrá-lo a quem nos visita mostramos que este sempre foi um espaço de acolhimento de migrantes. Entrar na Mouraria é sentir que se está a entrar num outro país. Os cheiros, os sabores, as cores, a comida, as mesquitas, os idiomas e as roupas das suas gentes transportam-nos para países como o Bangladesh.

Quando os portugueses pensam na Mouraria associam-na a práticas negativas, mas quando lá entram a opinião muda. Aqui as comunidades convivem pacificamente. No Largo São Domingos, onde se iniciam as visitas, existe um mural onde está escrito em 33 línguas: Lisboa, cidade da tolerância. O que me fascina na Mouraria é o facto de quebrarmos estereótipos, promovermos o respeito pelo outro, valorizarmos as diferenças culturais. O facto de me fazer sentir que sou parte desta multiculturalidade e que, afinal, ser migrante é muito bom.space

Filomena Farinha (Filo), 49 anos

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