Bom dia professora, como está?

Comecei a dar aulas aos 22 anos e três anos antes comecei a ser voluntária. Vivi toda a minha vida entre o dever profissional e o dever de cidadania pois desde sempre me educaram para a solidariedade e a responsabilidade social que faz com que um cidadão não tenha só direitos, mas também deveres. O voluntariado deu-me muito ao longo da vida, muito mais do que aquilo que eu me esforcei por dar. Sei que fiz a diferença na vida de muita gente, sei que com o meu exemplo outros seguiram a mesma via. space

spacePerante o drama dos refugiados e a lentidão com que os processos decorrem, ser voluntário ao serviço de quem foge da guerra, de quem tem que abandonar tudo e separar-se de quem mais ama é uma enorme responsabilidade. Encarei essa luta de frente certa de que gota a gota se formam oceanos.
Um dos desafios que tenho vivido é o de dar aulas de conversação de língua portuguesa a um grupo de 8 refugiados: 5 sírios, 2 iraquianos e uma jovem da eritreia. Os refugiados aprendem com entusiasmo, interesse e grande ansiedade. A consciência de que a língua é o instrumento e o bem mais necessários para quem chega a um país levou-me a usar estratégias várias que possam conduzir ao sucesso pretendido: que estes refugiados saibam dirigir-se a um médico quando precisam, que consigam estabelecer um diálogo com quem se cruzam, que a língua seja também uma arma de defesa quando são insultados na rua. Quando não se fala a língua e se vive num país estrangeiro, a fragilidade que cada um já traz pelas circunstâncias da vida aumenta. Falar português é o que cada refugiado mais deseja. Não há nada de mais emocionante do que conseguir ajudar quem precisa. Cada vez que oiço “bom dia professora, como está?” comovo-me. Uma língua leva também consigo emoção e partilha mesmo que seja numa simples troca de receitas de bolos. As línguas transportam também sorrisos. Sinto-me verdadeiramente abençoada por esta oportunidade e por ter agora oito novos amigos a quem desejo um novo recomeço de vida em paz e alegria.
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Luísa Lopes, voluntária

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